Sob o tema “O presente é nosso: reações aos projetos do fim do mundo do trabalho”, evento em Belo Horizonte reuniu grandes lideranças jurídicas para debater precarização, direitos sociais e a autonomia da advocacia

BELO HORIZONTE (MG) — O Movimento da Advocacia Trabalhista Independente (MATI) realizou, no dia 21 de agosto de 2026, na OAB Subseção Barro Preto, em Belo Horizonte, o seu IX Seminário Nacional. Com painéis de altíssimo nível, o evento colocou no centro do debate a urgência de uma atuação jurídica alinhada às demandas sociais, ambientais e democráticas do país.

O futuro não está dado, está em disputa. Sob essa premissa, o seminário mobilizou juristas, magistrados e advogados trabalhistas para confrontar a conjuntura de intensa precarização e os ataques ao acesso à Justiça. O evento marcou profundamente os participantes ao tratar a crise atual não apenas como um desafio técnico, mas como uma crise civilizatória que exige posicionamento firme da vanguarda jurídica.

O diretor-executivo do Movimento da Advocacia Trabalhista Independente (MATI), dr.Rodolfo Amadeo, destacou a importância de construir trincheiras e alternativas reais para a classe trabalhadora durante os debates, apontando a urgência de protocolos de julgamento com perspectiva de gênero e raça.

Durante as discussões, Dr. Rodolfo destacou que os direitos sociais são inegociáveis e que a união institucional é fundamental para barrar qualquer retrocesso, reafirmando que o presente nos pertence e a luta coletiva não será interrompida.

Presidente do MATI, dr. Rodolfo Amadeo ressaltou a importância dos debates e agradeceu a todos os presentes
(Presidente do MATI, dr. Rodolfo Amadeo ressaltou a importância dos debates e agradeceu a todos os presentes)

De cabeça erguida!

Por sua vez, o presidente da Associação Fluminense de Advogados Trabalhistas (AFAT) e diretor- tesoureiro do MATI, dr. Marcos Maleson, pontuou a trajetória de independência da entidade frente às tentativas de cooptação e submissão institucional: “Enquanto alguns institutos e associações sofrem com um processo de autofagia — acuados pelo medo de enfrentar quem precisa ser enfrentado —, o MATI nunca teve medo de cumprir o seu verdadeiro papel, de defender os interesses da advocacia e da sociedade. Estivemos presentes nos momentos mais críticos (como o vácuo da reforma trabalhista em 2017) e seguimos firmes na construção de uma profissão altiva e independente, sem submissão a privilégios.”

A advogada trabalhista, dra. Cássia Hatem, Secretária-Geral Adjunta Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Minas Gerais (OABMG), representando o presidente, Gustavo Chalfun, reforçou que compromisso com a advocacia trabalhista e com a defesa intransigente das prerrogativas profissionais é o pilar que sustenta qualquer direito material. “Nossa diretoria reforça a parceria fundamental com o Movimento da Advocacia Trabalhista. Estar ao lado de iniciativas que fortalecem a advocacia é, por consequência, defender o próprio Estado Democrático de Direito. O futuro do trabalho não será escrito por quem o teme ou deseja extingui-lo, mas por quem o defende, o valoriza e nele acredita.”

O secretário-geral da Subseção OAB Barro Preto, dr. Ruy Neiva, ressaltou: “O presente, hoje, é aqui. Em nome do nosso presidente Cândido Antônio, reforçamos nosso agradecimento especial ao dr. Vinícius Nonato e a toda diretoria do MATI por tornarem este evento magnânimo possível em nossa subseção. O debate sobre o trabalho é vivo, urgente e coletivo. Seguimos juntos.”

Interseccionalidade e a superação da cegueira racial nas relações de trabalho

Aprofundando o debate sobre a violência contra a mulher nas relações de trabalho sob uma leitura interseccional da misoginia, a exposição da Dra. Isadora Brandão Araújo da Silva trouxe reflexões urgentes sobre as sociedades pós-coloniais, como a brasileira e a estadunidense:

“De modo geral, notadamente em contextos de sociedades pós-coloniais, como a nossa e como também a estadunidense. Quando a gente fala em interseccionalidade, precisamos lançar luz e chamar a atenção para a necessidade de compreendermos todos e todas que o enfrentamento à opressão das mulheres e à misoginia só pode alcançar e beneficiar de fato todas as mulheres.”

A voz da magistratura e o compromisso coletivo

Complementando o panorama crítico do evento, a juíza do trabalho na 4a Região, dra. Valdete Souto Severo incitou o público a refletir sobre a inércia institucional e a responsabilidade dos operadores do direito: “É indecente da perspectiva ambiental, da perspectiva feminista, da perspectiva antirracista, esse mundo insustentável. Agora, o que fica então como reflexão final é: e nós? Qual é a nossa implicação nessa história? Porque a gente não faz a nossa parte?”

Referenciando Guimarães Rosa, a renomada advogada trabalhista e professora, dra. Ellen Hazan, disse que muitas vezes é tentador buscar o caminho mais fácil — como uma conciliação rápida por honorários — ou cair na ilusão de que podemos “vencer” o capital na mesa de negociação coletiva. A dura realidade? “Quem faz negócio é o capital, não nós,” alertou.

O IX Seminário Nacional do MATI consolidou-se, portanto, como um espaço vital para oxigenar o pensamento jurídico brasileiro, contando com debates profundos, lançamentos de livros imperdíveis e a reafirmação de que a superação das crises estruturais exige união coletiva e ação antirracista, antissexista e independente. O encontro também marcou o lançamento de uma obra literária desenvolvida por mais de 20 autores, contando com o apoio estratégico de diversas entidades parceiras.

O Seminário lotou o auditório da OAB Subseção Barro Preto
(O Seminário lotou o auditório da OAB Subseção Barro Preto)

(Crédito: FotoStudium/Alessandro Carvalho)

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